Transtorno de Interação Social Desinibida: O que Você Precisa Saber
Conheça os sintomas, causas e tratamentos para esse transtorno infantil.
21.02.2022 | João Vitor Santos
O transtorno de interação social desinibida é uma condição infantil em que a criança não demonstra medo de estranhos e se aproxima de adultos desconhecidos sem cautela. É causado por negligência e rupturas de vínculo no início da vida. O tratamento envolve cuidado estável e terapia com a criança e os responsáveis, com apoio de um profissional de saúde mental.
A maioria das crianças são cautelosas com adultos que elas não conhecem. Na maioria das vezes, o medo de pessoas estranhas é útil e saudável. Entretanto, algumas crianças não têm esse medo.
Crianças com transtorno de interação social desinibida não têm medo de estranhos. Na verdade, elas ficam tão à vontade com pessoas novas que não hesitam em entrar no carro ou subir no colo de um desconhecido. Essa simpatia excessiva com pessoas que elas não conhecem pode se tornar um risco seríssimo de segurança caso o problema não seja tratado.
Sinais da interação social desinibida
Para atender os critérios diagnósticos do transtorno de interação social desinibida, a criança deve exibir um padrão de comportamento que inclui abordar e interagir com adultos desconhecidos além de, pelo menos, dois dos comportamentos a seguir:
- Comportamento amigável demais, ao ponto de não ser compatível com o que é socialmente apropriado;
- Pouca ou nenhuma cautela em abordar e interagir com adultos desconhecidos;
- Pouco ou nenhum interesse em retornar para o adulto responsável depois de passar um tempo longe, mesmo em ambientes desconhecidos;
- Disposição de acompanhar um adulto desconhecido com pouca ou nenhuma cautela.
É preciso ressaltar que a criança só poderá ser diagnosticada com o transtorno de interação social desinibida se os comportamentos não forem induzidos por problemas no controle de impulsos, uma característica comum de outros transtornos.
Por exemplo, uma criança com transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) pode correr para longe em um parque e se esquecer de verificar se os pais estão acompanhando. Uma criança com transtorno de interação social desinibida, por outro lado, vai se afastar sem verificar os pais porque não acha que estar longe deles é um problema.
Além dos critérios comportamentais mencionados acima, a criança precisa ter um histórico de negligência, conforme os seguintes critérios:
- Negligência social, incluindo a ausência das necessidades emocionais por conforto, estímulo e afeto que são oferecidos pelos adultos responsáveis;
- Constantes trocas de responsáveis primários, de forma que a criança não teve oportunidade de se apegar como deveria;
- Criação em ambientes pouco convencionais, como orfanatos, de forma que a criança não pôde formar laços adequadamente devido a presença de muitas crianças para poucos adultos responsáveis.
Se a criança apresenta os sintomas por mais de 12 meses, o transtorno é considerado persistente. O transtorno é descrito como severo quando a criança exibe os sintomas em intensidades elevadas.
O transtorno de interação social desinibida é induzido pela negligência e, portanto, pode ser acompanhado de outras condições, como desnutrição e retardos cognitivos ou de linguagem.
Ausência de preferência pelos adultos responsáveis
A maioria das crianças mantém a proximidade com seus cuidadores primários, principalmente quando precisam de conforto. Por exemplo, uma criança que cai de um balanço e esfola o joelho irá procurar o adulto que a levou para brincar para ser consolada e ter o ferimento tratado.
Se uma criança com transtorno de interação social desinibida cair no parque, ela pode procurar um completo estranho para obter apoio. Ela pode dizer a um adulto aleatório que está ferida ou até mesmo sentar no colo de alguém em um banco do parque e chorar.
O comportamento desinibido da criança pode ser confuso e assustador para os cuidadores. Os adultos envolvidos podem achar difícil de entender porque uma criança interage com adultos desconhecidos sem um momento de hesitação.
Dificuldade em saber quem é confiável
Crianças pequenas não são boas em identificar predadores, mas a maioria é cautelosa com pessoas que não conhecem. A maior parte das crianças é capaz de julgar se um estranho parece gentil ou ameaçador com base no rosto de um indivíduo. Uma pesquisa descobriu que as crianças fazem avaliações iniciais sobre a confiabilidade de um indivíduo com base na aparência dessa pessoa.
Para uma criança com interação social desinibida, as dificuldades com o reconhecimento facial podem contribuir para sua vontade de conversar e se envolver com estranhos.
Estudos mostram que crianças com o transtorno não podem distinguir entre uma pessoa que parece gentil e segura e alguém que parece assustador e suspeito.
Carência de atenção
Crianças com transtorno de interação social desinibida anseiam pela atenção alheia. Como não podem identificar quais pessoas são confiáveis, essas crianças podem demonstrar afeto por qualquer um que lhes dê atenção, incluindo alguém que não seja conhecido.
Não é incomum que uma criança com o transtorno abrace um estranho no supermercado ou inicie uma conversa altamente pessoal com um adulto desconhecido no parquinho. Elas podem até se sentar com outra família no parque como se tivessem sido convidados para o piquenique.
Uma criança com transtorno de interação social desinibida busca afeto físico indiscriminadamente. Por exemplo, ela pode sentar no colo de um estranho em uma sala de espera.
Sinais por faixa etária (pré-escolar, escolar, adolescência)
Os comportamentos provocados pelo transtorno de interação social desinibida podem mudar e evoluir à medida que a criança cresce. Reconhecer como os sinais se apresentam em cada fase ajuda os responsáveis a identificar o padrão mais cedo.
Idade pré-escolar (aproximadamente 3 a 5 anos). Nessa fase, crianças com interação social desinibida começam a buscar atenção ativamente, fazendo barulhos altos no parque para que adultos desconhecidos olhem para elas, por exemplo. É comum que se aproximem, abracem ou subam no colo de estranhos sem hesitar e que não retornem ao cuidador em busca de conforto após um susto.
Idade escolar (segunda infância). Nessa fase, as crianças muitas vezes mostram familiaridade excessiva bem como expressão dissimulada de emoções. Um pré-adolescente pode rir quando os outros riem ou parecerem tristes para manipular uma situação. Entre os pares, eles podem agir de maneira excessivamente íntima. Por exemplo, eles podem dizer: “quero ir na sua casa” ao conhecer um novo colega de classe pela primeira vez.
Adolescência. Adolescentes com transtorno de interação social desinibida são propensos a ter problemas com colegas, pais e professores. Eles tendem a desenvolver relacionamentos superficiais com os outros, se envolverem em conflitos e continuarem a demonstrar comportamento desinibido em relação aos adultos.
Os pesquisadores estão estudando as consequências a longo prazo para crianças com transtorno de interação social desinibida, particularmente se seus efeitos se estendem até a idade adulta.
Causas: negligência, mudanças de cuidadores e institucionalização
O transtorno de interação social desinibida é causado pela negligência durante a infância. Mas geralmente existem mal-entendidos sobre o que constitui negligência e sobre o que contribui para o desenvolvimento de distúrbios desse tipo em crianças. De modo geral, três situações estão por trás do quadro:
- Negligência social e emocional, quando as necessidades da criança por conforto, estímulo e afeto não são atendidas de forma consistente pelos adultos responsáveis. Para entender melhor o impacto amplo desse tipo de privação, vale ler sobre como a negligência pode afetar a saúde.
- Mudanças repetidas de cuidadores, como trocas frequentes de lares adotivos, de forma que a criança não tem a oportunidade de formar um vínculo estável com uma figura de referência.
- Institucionalização, ou seja, a criação em ambientes como orfanatos e abrigos, em que há muitas crianças para poucos adultos, dificultando a formação de laços seguros.
A negligência durante a infância interfere no vínculo e no apego. Isso prejudica a capacidade da criança de desenvolver relacionamentos de confiança com os cuidadores e muitas vezes persiste na vida adulta. Compreender os estilos de apego ajuda a enxergar por que um vínculo seguro no início da vida é tão importante.
Os bebês aprendem a confiar em seus cuidadores quando esses respondem consistentemente às suas necessidades. Por exemplo, um bebê que é alimentado em resposta a seus choros famintos aprenderá que pode contar com os seus pais para receber alimento.
Ao contrário dos mitos comuns, colocar a criança em uma creche não provoca o distúrbio, colocá-la no berço quando estiver chorando também não. As crianças que são negligenciadas podem não se relacionar com seus cuidadores. Se um bebê chorando é constantemente ignorado, eles assimilam que as pessoas ao seu redor não são confiáveis.
Um bebê que é deixado sozinho na maior parte do tempo com pouco envolvimento social pode não formar nenhum tipo de relacionamento com um responsável. Consequentemente, essa criança pode estar em risco de um transtorno de apego.
Embora as consequências possam ser graves, é importante saber que nem todas as crianças negligenciadas desenvolvem transtorno de interação social desinibida. Na verdade, muitas crianças crescerão para terem relacionamentos saudáveis sem problemas de apego duradouros.
Transtorno de apego reativo x interação social desinibida
Tanto o transtorno de apego reativo quanto o transtorno de interação social desinibida têm origem na negligência e na ruptura de vínculos no início da vida. A diferença está na forma como a criança reage a esse histórico.
No transtorno de apego reativo, a criança tende a se retrair: evita os cuidadores, busca pouco conforto quando está aflita e demonstra pouca resposta emocional, mesmo diante de pessoas próximas. É um padrão de inibição e afastamento.
Na interação social desinibida, o comportamento é o oposto. Em vez de evitar contato, a criança se aproxima de adultos desconhecidos sem cautela, demonstra afeto de forma indiscriminada e não distingue entre quem é ou não familiar. É um padrão de desinibição.
Uma mesma criança pode, em momentos diferentes, apresentar traços dos dois quadros. Por isso o diagnóstico preciso deve ser feito por um profissional de saúde mental, que avalia o histórico completo e o padrão de comportamento antes de definir a conduta.
Prevalência do transtorno de interação social desinibida
Acredita-se que essa condição seja relativamente rara. Crianças que foram criadas em institutos, como orfanatos ou institutos adotivos, têm uma chance maior de desenvolver a condição.
Muitas crianças com histórico de abuso ou negligência não desenvolvem transtornos de apego, mas estudos sugerem que cerca de 20% das crianças em grupos de alto risco desenvolvem o transtorno de interação social desinibida.
Riscos e consequências da interação social desinibida
É importante que crianças tenham uma dose saudável de medo de estranhos e pessoas potencialmente perigosas. Criar uma criança com transtorno de interação social desinibida pode ser bastante confuso e assustador para os responsáveis.
Uma criança de cinco anos com o transtorno pode passear com um estranho no shopping ou uma criança de dez anos pode entrar desacompanhada na casa de um vizinho sem pensar duas vezes sobre a segurança ou as possíveis consequências dessas ações.
Os responsáveis que criam uma criança com essa condição devem manter vigilância constante para garantir que a criança não entre em uma situação perigosa. Talvez seja necessário intervir com frequência para impedir que a criança interaja com estranhos.
Crianças com transtornos de apego lutam para desenvolver relacionamentos saudáveis com professores, responsáveis e colegas. Seu comportamento pode ser alarmante o suficiente para que pessoas ao seu redor, como a família de um colega de classe, evitem interações sociais, principalmente se não conhecerem o transtorno.
Tratamento e como ajudar a criança
É importante que as crianças com distúrbios de apego recebam cuidado constante de cuidadores estáveis. Uma criança que continua a se mudar de um lar adotivo para outro ou uma que continua em um instituto tem menos chances de melhorar.
Uma vez estabelecido o cuidado consistente, o tratamento pode começar a fortalecer o vínculo entre a criança e um responsável principal. No dia a dia, os responsáveis podem ajudar mantendo rotinas previsíveis, respondendo de forma calma e consistente às necessidades da criança e reforçando a segurança do vínculo, ao mesmo tempo em que supervisionam de perto as interações com desconhecidos.
Os distúrbios de apego não tendem a melhorar por conta própria. O tratamento profissional geralmente consiste em terapia com a criança e os responsáveis; os planos de tratamento são individualizados para atender às necessidades e sintomas exclusivos de cada criança.
No Brasil, o diagnóstico e a psicoterapia são conduzidos por um psicólogo com registro no Conselho Regional de Psicologia (CRP), e, quando há necessidade de avaliação medicamentosa, por um médico psiquiatra infantil com registro no Conselho Regional de Medicina (CRM). Esse cuidado está disponível de forma gratuita pelo SUS, sobretudo nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), incluindo o CAPSi, voltado a crianças e adolescentes.
Se você está preocupado que uma criança sob seus cuidados possa ter um distúrbio de apego, converse com seu pediatra. Ele pode encaminhar a criança a um profissional de saúde mental para uma avaliação abrangente. Se preferir buscar diretamente, é possível encontrar um psicólogo especializado em atendimento infantil ou, quando a questão envolve medicação, um psiquiatra online.
Como o transtorno está ligado à negligência, pode acontecer de a suspeita surgir em um contexto que envolve violação de direitos da criança. Nesse caso, além do apoio de saúde mental, é possível acionar os canais de proteção: o Conselho Tutelar do município, responsável por receber denúncias de violência ou negligência contra crianças e adolescentes, e o Disque 100 (Disque Direitos Humanos), canal gratuito e sigiloso de denúncia de violações de direitos de pessoas em situação de vulnerabilidade. Buscar ajuda cedo, com acolhimento e sem culpabilizar quem cuida da criança, é o que garante os melhores resultados.