Preconceito: O Que É, os Diferentes Tipos e Como Combatê-lo
Preconceito é uma suposição negativa ou pré-julgamento sobre os membros de um grupo específico, veja aqui os diferentes tipos de preconceito e como combatê-los
17.03.2023 | João Vitor Santos
Preconceito é uma suposição ou opinião negativa sobre alguém baseada apenas no fato de a pessoa pertencer a um determinado grupo, como etnia, gênero, religião ou idade. Envolve sentimentos negativos, crenças estereotipadas e tendência a discriminar, e é um pré-julgamento feito antes mesmo de conhecer a pessoa de verdade.
Preconceito é uma suposição ou uma opinião sobre alguém simplesmente baseada na pertença dessa pessoa a um determinado grupo. Por exemplo, as pessoas podem ter preconceito contra alguém de outra etnia, gênero ou religião.
Se alguém está agindo de acordo com seus preconceitos, está pré-julgando (daí o termo "preconceito") alguém antes mesmo de conhecê-lo em um nível mais profundo. Esta é uma atitude irracional e uma mentalidade que não é boa para ninguém envolvido.
Por exemplo, uma pessoa pode ter muitas ideias preconcebidas sobre alguém que é cristão, muçulmano ou judeu e permitirá que esses julgamentos afetem a maneira como veem e tratam essas pessoas. O mesmo pode ser verdade para pessoas negras, brancas ou asiáticas.
As características comuns do preconceito incluem:
- Sentimentos negativos;
- Crenças estereotipadas;
- Uma tendência para discriminar os membros de um grupo.
Na sociedade, muitas vezes vemos preconceitos em relação a um grupo com base em raça, sexo, religião, cultura e muito mais.
Embora as definições específicas de preconceito dadas pelos cientistas sociais muitas vezes sejam diferentes, a maioria concorda que envolve preconceitos que geralmente são negativos sobre os membros de um grupo.
Tipos de Preconceito
Como mencionado, uma atitude preconceituosa pode ser baseada em vários fatores, incluindo sexo, raça, idade, orientação sexual, nacionalidade, status socioeconômico e religião. Conhecer os diferentes tipos de preconceito ajuda a identificá-los no dia a dia. Veja abaixo os mais comuns, com exemplos do contexto brasileiro.
Preconceito racial (racismo)
O racismo é o preconceito baseado na cor da pele, na etnia ou na origem racial de uma pessoa. No Brasil, ele se manifesta de forma estrutural: está enraizado em instituições e práticas sociais, e não apenas em atitudes individuais.
Como a maior parte da população brasileira é preta ou parda, esse preconceito atinge milhões de pessoas e se traduz em desigualdades de renda, emprego e acesso à educação. Um exemplo cotidiano é a abordagem policial mais frequente a jovens negros ou a dificuldade de acesso a determinados cargos e ambientes.
Preconceito linguístico
O preconceito linguístico é a desvalorização de alguém pela forma como fala. O linguista brasileiro Marcos Bagno, no livro Preconceito Linguístico, mostra que não existe jeito "certo" ou "errado" de falar português: sotaques regionais, gírias e variações populares são igualmente legítimos.
Um exemplo é tratar o sotaque nordestino como sinal de menor escolaridade, ou zombar de quem fala "nós vai" em vez de "nós vamos". Julgar a inteligência de uma pessoa pela sua fala é uma forma sutil e comum de preconceito no país.
Preconceito religioso
O preconceito religioso é a intolerância contra pessoas por causa de sua fé ou crença. No Brasil, as religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, são alvos frequentes de ataques e discriminação, apesar de a liberdade religiosa ser garantida pela Constituição. Ofender, impedir cultos ou destruir templos são exemplos graves desse tipo de preconceito.
Preconceito de gênero e contra a mulher (sexismo e misoginia)
O sexismo é o preconceito baseado no gênero, e a misoginia é a aversão ou o desprezo especificamente contra as mulheres. Exemplos incluem pagar salários menores a mulheres pelo mesmo trabalho, duvidar da competência profissional de uma mulher ou responsabilizá-la por situações de violência que sofre. É um preconceito que limita oportunidades e reforça desigualdades históricas.
Preconceito de idade (etarismo)
O etarismo, ou preconceito de idade, é o julgamento de pessoas por causa de sua faixa etária, atingindo principalmente os idosos. Exemplos comuns são supor que uma pessoa mais velha é incapaz de aprender tecnologia, excluí-la de vagas de emprego ou tratá-la de forma infantilizada.
Preconceito social ou de classe (classismo)
O classismo é o preconceito contra pessoas por sua condição socioeconômica. No Brasil, ele aparece quando alguém é julgado pelo bairro onde mora, pela roupa que veste ou por frequentar espaços considerados "de elite". A aporofobia, a aversão específica a pessoas pobres, é uma de suas expressões mais duras.
Xenofobia
A xenofobia é o preconceito contra pessoas de outros países ou regiões. Pode se voltar a imigrantes e refugiados, mas também surge dentro do próprio Brasil, na forma de preconceito regional contra pessoas de determinadas regiões do país.
LGBTfobia
A LGBTfobia reúne o preconceito e a violência contra pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e demais identidades. A homofobia e a transfobia foram equiparadas ao crime de racismo pelo Supremo Tribunal Federal em 2019. Exemplos vão de piadas ofensivas à exclusão e à agressão física. Esse preconceito tem forte impacto na saúde mental da população LGBTQIA+.
Preconceito, estereótipo e discriminação: qual a diferença
Esses três termos costumam ser confundidos, mas descrevem coisas diferentes:
- Estereótipo é a crença generalizada sobre um grupo, a ideia pronta de que "todo mundo daquele grupo é assim". É a base cognitiva do preconceito.
- Preconceito é a atitude ou o sentimento negativo em relação a alguém por causa do grupo a que pertence. Está no campo das crenças e das emoções.
- Discriminação é a ação concreta que coloca o preconceito em prática, como excluir, ofender, negar oportunidades ou tratar alguém de forma desigual.
Em resumo: o estereótipo é a ideia, o preconceito é a atitude e a discriminação é o comportamento. Uma pessoa pode ter preconceito sem necessariamente discriminar, mas a discriminação quase sempre nasce de um preconceito.
Preconceito no Brasil e a lei
No Brasil, muitas formas de preconceito não são apenas moralmente reprováveis: são crime. A Lei nº 7.716/1989 define como crime as condutas de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, e o racismo é considerado crime inafiançável e imprescritível pela Constituição Federal. A injúria racial, que é ofender a honra de alguém utilizando elementos ligados a raça, cor, etnia ou religião, também é crime.
Segundo o Censo 2022 do IBGE, a maior parte da população brasileira se declara parda (45,3%) ou preta (10,2%), o que soma cerca de 55,5% de pessoas negras. Esse dado ajuda a dimensionar o quanto o racismo estrutural afeta a maioria da sociedade brasileira, e reforça por que combater o preconceito é uma questão coletiva.
Denúncias de crimes de preconceito e discriminação podem ser feitas na delegacia, no Ministério Público ou pelo Disque 100, canal do governo federal para violações de direitos humanos.
Como o preconceito afeta negativamente todas as partes
Quando as pessoas têm atitudes preconceituosas em relação aos outros, elas tendem a ver todos os que se enquadram em um determinado grupo como sendo "todos iguais". Eles pintam cada indivíduo que possui características ou crenças particulares com um pincel muito amplo e falham em realmente olhar para cada pessoa como um indivíduo único.
Isso tem uma influência muito forte na forma como as pessoas se comportam e interagem com aqueles que são diferentes delas.
Em um nível básico, pode sufocar a capacidade de uma pessoa preconceituosa de aprender mais sobre aqueles que são diferentes dela. Como resultado, também pode fazer com que eles percam relacionamentos ou conversas que têm o potencial de serem profundamente gratificantes.
Aqueles que recebem o preconceito são particularmente afetados, no entanto. Essas pressuposições e preconceitos não apenas podem infligir danos verdadeiros, mas também podem afetar a capacidade da pessoa de ter oportunidades justas na vida.
Por exemplo, nos EUA, o preconceito histórico contra a população negra se traduziu em taxas de encarceramento mais altas, menos ofertas de emprego e salários mais baixos. No Brasil, essa mesma lógica aparece no racismo estrutural, que mantém a população preta e parda com menor acesso a bons empregos, educação e segurança.
Outro exemplo é a intolerância religiosa: no Brasil, adeptos de religiões de matriz africana enfrentam ataques e discriminação apenas por causa de sua fé.
Preconceito e saúde mental
Sofrer preconceito de forma repetida cobra um preço alto da saúde mental. Pessoas que vivenciam racismo, LGBTfobia, sexismo ou outras formas de discriminação apresentam maior risco de estresse crônico, ansiedade, depressão e queda na autoestima. O peso constante de se sentir julgado, excluído ou ameaçado pode afetar profundamente o bem-estar emocional, um fenômeno ligado ao estigma social.
Cuidar da saúde mental diante do preconceito é um ato de cuidado, não de fraqueza. Reconstruir a autoestima e encontrar espaços seguros de escuta faz diferença.
Se o preconceito que você vive vem afetando seu dia a dia, conversar com um psicólogo registrado no CRP pode ajudar a processar essas experiências e fortalecer o bem-estar. Na PsyMeet você pode encontrar um psicólogo que atenda online, com sigilo e acolhimento. Para quem busca também avaliação clínica ou apoio de outros profissionais, é possível conhecer os serviços de terapia e psiquiatria.
Por que o preconceito ocorre
Não há uma resposta clara sobre por que existe preconceito e a realidade é que vários fatores entram em jogo. De acordo com o psicólogo Gordon Allport, o preconceito e os estereótipos surgem em parte como resultado do pensamento humano normal. Para entender o mundo ao nosso redor, é importante classificar as informações em categorias mentais.
"A mente humana deve pensar com a ajuda de categorias", explicou Allport em seu livro The Nature of Prejudice. "Uma vez formadas, as categorias são a base para o pré-julgamento normal. Não podemos evitar esse processo. Uma vida ordenada depende disso."
Em outras palavras, muitas vezes dependemos de nossa capacidade de colocar pessoas, ideias e objetos em diferentes categorias para tornar o mundo mais fácil de entender.
Somos simplesmente inundados com muita informação para classificar tudo de uma forma lógica, metódica e racional. Infelizmente, essa categorização rápida leva a suposições errôneas que têm impacto nos indivíduos e no mundo em geral.
Como combater o preconceito
Embora em alguns casos o preconceito seja flagrante - evoluindo para "-ismos" absolutos -, muitas vezes pode ocorrer sem que percebamos. Seja profundamente arraigado, ensinado ou um viés implícito, é importante lutar contra nossos próprios preconceitos que temos contra os outros.
Uma das primeiras maneiras de fazer isso é entender e aceitar que isso aconteça. Ao estar ciente de sua própria tendência natural de ser tendencioso (e é algo que todos experimentamos, conscientemente ou não), você será capaz de se pegar mais facilmente “no ato” e se autocorrigir.
Reconhecendo e corrigindo seus preconceitos
Quando você perceber que está pré-julgando outra pessoa, tente fazer a si mesmo as seguintes perguntas:
- Por que estou tendo esse pensamento?;
- Que prova tenho de que meu julgamento sobre essa pessoa ou grupo em particular está correto?;
- O que eu não sei sobre essa pessoa ou grupo?;
- É possível que eu seja tendencioso?
Além de examinar as razões pelas quais o preconceito ocorre, os pesquisadores também exploraram diferentes maneiras pelas quais o preconceito pode ser reduzido ou mesmo eliminado. Por exemplo, desenvolver a empatia e as habilidades para se colocar no lugar dos membros de outro grupo é um método que tem demonstrado considerável sucesso.
Por exemplo, simplesmente imaginar-se no mesmo “sapato” que a outra pessoa pode humanizá-la para você. Nesse momento, eles não são mais apenas um membro aleatório de um grupo diferente do seu (que você pode não entender completamente).
Em vez disso, eles se tornam um ser mais complexo aos seus olhos - alguém com mãe e pai, um irmão, um amigo para os outros, um colega de trabalho, um parceiro romântico. Alguém com interesses únicos, capacidade de amar, chorar e sentir.
Outras técnicas que são usadas para reduzir o preconceito incluem:
- Pensar no fato de que outras pessoas provavelmente têm preconceito contra você e pensar em como é ser pré-julgado com base em algo tão simples quanto sua cor de pele, religião, sexo ou idade;
- Educar-se sobre outros grupos, o que inclui aprender sobre os estereótipos comuns contra eles;
- Passar mais tempo com membros de outros grupos;
- Ter conversas abertas sobre a tendência humana de praticar o preconceito;
- Defender leis e regulamentos que exijam tratamento justo e igualitário para todos os grupos de pessoas.
Uma última dica
Saber o que é preconceito e por que ele tende a ocorrer é um passo importante para ajudar o mundo a se tornar um lugar mais acolhedor e igualitário. Há muito progresso a ser feito, é claro.
Continue a ter conversas importantes, reconheça seus próprios preconceitos em potencial e se esforce para entender os outros em um nível mais profundo.