Saúde mental, responsabilidade e cuidados: breves considerações.
A busca por informação e diálogo sobre a questão da saúde mental tem sido uma realidade cada vez mais frequente na nossa sociedade. Mas afinal, o que é e o que envolve ter Saúde Mental? Esse artigo propõe uma breve discussão sobre a questão lançada. Ainda são levantadas algumas reflexões, provocações, questões e possibilidades sobre o tema. Boa leitura!
14.11.2022 | Caique Oliveira
A busca por informação e diálogo sobre a questão da saúde mental tem sido uma realidade cada vez mais frequente na nossa sociedade. A criação e o aumento significativo de diagnósticos em saúde mental e o uso desenfreado de medicamentos psicotrópicos é ensurdecedor.
Para além do exposto, os modos de viver mudaram radicalmente nos últimos anos. De modo geral, de um lado, as gerações mais experientes se lançam aos desafios de compreender o cotidiano atual, horizontal, complexo e conectado, nada parecido com o cenário da ordem pré-estabelecida de cima para baixo que predominava antigamente.
Já do outro lado da moeda, as gerações mais recentes encontram-se em uma encruzilhada entre viver o que há e a busca por formas de ilustração e aceitação do novo que se impõe aos seus antecessores.
Mas afinal, o que é e o que envolve ter Saúde Mental? Esse artigo propõe uma breve discussão sobre a questão lançada. Ainda são levantadas algumas reflexões, provocações, questões e possibilidades sobre o tema. Boa leitura!
Compreendendo a questão: o que é saúde mental?
Saúde mental trata-se de um ponto de equilíbrio em que o sujeito alcança no manejo do cuidado dos seguintes aspectos da sua vida: o físico, a mente e as relações - também nomeado como campo social.
De certo, tem coisas que só a gente pode fazer pela gente, e se cuidar é uma delas. Se nós não administrarmos o nosso tempo para nos cuidarmos, fica difícil esse cuidado acontecer, vir de fora, dos outros, ou cair do céu.
Responsabilidade, uma palavra fundamental para a Saúde Mental.
Responsabilidade é uma palavra historicamente utilizada e valorizada com frequência na cultura. Normalmente ela é atribuída a algo que devemos estabelecer com o nosso exterior. São alguns exemplos: “é preciso ter responsabilidade com as coisas”, “é preciso ter responsabilidade com o trabalho”, ”é preciso ter responsabilidade com os outros” e por aí vai…
No entanto, em se tratando de Saúde Mental, a responsabilidade deve ser algo praticado originariamente de dentro para fora. Qualquer tipo de responsabilidade deve ser pensada e praticada inicialmente consigo mesmo, antes de qualquer outra finalidade. Quando decidimos nos cuidar, se aceitar, se acolher e lidar com os nossos acertos e erros, nos tornamos protagonistas, donos da própria vida.
Sendo assim, as queixas da vida anteriormente atribuídas aos pais, aos parentes, aos amigos, ao parceiro amoroso, ao colega de trabalho, ao chefe, ao mundo, ou seja, ao outro, cessam e finalmente compreendemos que somos os únicos e grandes responsáveis por aquilo que nos acontece, deste modo, a partir daí podemos refletir e mudar. E sim, existem pessoas e situações difíceis e cruéis no percurso da nossa vida, mas nós podemos escolher como reagir e lidar com elas.
A importância do olhar e do cuidado para com a mente.
Cuidar da mente não deve ser visto como algo supérfluo, adiável, pelo contrário, sempre foi, é, e será uma necessidade do ser humano. Cada vez mais está tecnológico, conectado, surpreso, perdido, tendo que adaptar-se constantemente e complexo - por natureza. Somos o único animal que não possui manual de como viver.
E a psicoterapia é uma via importante que dá acesso a esse cuidado com a mente. Colocar o sofrimento em palavras, trabalhar no sentido de decifrá-lo e transformá-lo é um caminho ético, interessante e enriquecedor. Mas não é o único caminho possível, pois nem todo mundo está interessado, disposto, preparado ou suporta colocar-se em análise.
Mas para além da psicoterapia existe vida e possibilidades. Existem também outras alternativas como: o tratamento psiquiátrico, o uso momentâneo de medicamentos psicotrópicos, medicamentos naturais, terapias holísticas, o desenvolvimento da espiritualidade e práticas das mais variadas áreas que podem vir a contribuir com o desenvolvimento do autoconhecimento e o cuidado com a mente.
Se faz sentido para você, se te ajuda na prática, porque não? Se joga! Já dizia um saudoso professor da minha graduação, o pior tipo de preconceito é o intelectual. Agora, será que trabalhar somente a questão da mente é o suficiente para o estabelecimento da Saúde Mental?
Mente sã, corpo são. Será?
Buscar uma relação de cuidado e respeito com o próprio corpo proporciona a qualquer sujeito uma vida menos tensa e mais disposta. E o começo dessa relação pode se dar com o trabalho da auto aceitação do corpo da realidade, do corpo possível. É comum o fato de que a maioria das pessoas quando pensam em possibilidades para cuidar do próprio corpo, conectem essa ideia prioritariamente com o objetivo estético.
Mas, também é comum escutar de alguns pacientes no setting terapêutico o quanto a prática de exercícios físicos auxilia no combate a ansiedade, por exemplo. Vale a pena refletir que cuidar do físico, vai muito além da estética e deve ser repensado no sentido de conquistar saúde como um todo. A estética pode ser legal, mas deve ser compreendida como uma mera consequência.
Portanto faça a sua parte, busque o roteiro e as atividades que você tem mais afinidade e que funcionam para você. Busque saúde, disposição e uma vida qualificada, onde você é quem maneja as rédeas e faz o seu acontecer. E o que vier de bônus com a prática da atividade, celebre também! Mas será que os cuidados com a mente e corpo bastam para o estabelecimento da Saúde Mental?
Relações sociais, dos conflitos à sobrevivência.
Viver em grupo nunca foi fácil, até um certo tempo atrás - na antiguidade, nós nos matávamos em praça pública, ora éramos algozes e vítimas dentro de uma arena, ora éramos meros espectadores e formávamos plateias ansiosas para assistir o derramamento de sangue.
Relacionar-se com um outro envolve muitas questões, doar, receber, esperar, se frustrar, se posicionar, se angustiar, celebrar e por aí se vai longe… O oposto disso, viver sozinho, levanta muitas questões que caminham no sentido de que ficaria impossível sobrevivermos a sós no mundo, assim sendo, é fato que precisamos um do outro para sobreviver.
Mas essa relação não precisa ser e não é só flores. Precisamos lidar constantemente com as nossas diferenças. Cada vez mais vivemos em um tempo em que quem resiste a considerar e conviver com a diversidade fica para trás. A diversidade é a nossa marca, e pode tomar outros rumos diferentes, tão mais interessantes que o conflito e a rejeição.
Portanto, estabelecer relações sólidas-reais e que considerem a diversidade no dia a dia, pois é um caminho estrutural para o estabelecimento da nossa saúde mental. Sim, certas vezes fica difícil o manejo disso, seja por nossa conta (um momento ou questão específica) ou pela do outro, na primeira condição a gente busca ajuda e vai à luta, já na última, é como diz a artista brasileira Nany People: “a gente sobrevive às pessoas.”
Considerações finais.
Cuidar da saúde mental envolve várias questões e áreas da nossa vida. E as respostas estão mais perto do que a gente imagina, elas não vêm de outro mundo. A realidade muitas vezes é fria, sem graça, dura, mas é o que temos para viver e pode ser outras coisas mais leves e interessantes, a depender do desejo e das ações do sujeito.
Entretanto, que fique claro que todo conteúdo abordado neste modesto artigo se aplica a qualquer sujeito que tenha o mínimo de direitos garantidos, instrução e estrutura na vida. Afinal, como é possível esperar e exigir Saúde Mental de qualquer sujeito que é vítima da questão da fome? Que sofre qualquer tipo de violência e não consegue (por inúmeras razões e questões) sequer denunciar?
Que é vítima de um sistema financeiro perverso como o capitalismo e sobrevive à margem da sociedade em situação de vulnerabilidade?
Ademais, fica a reflexão, que possamos dialogar mais sobre essas últimas temáticas citadas a nível de sociedade civil e transformarmos essa realidade difícil de digerir em algo potencializador. Afinal, uma sociedade justa socialmente produz sujeitos mais dignos, saudáveis e transformadores. Sozinho, qualquer caminho fica mais difícil, caminhando em conjunto, buscando ajuda e realizando trocas, o percurso fica mais sustentável e saudável.