O Que É Impulsividade?
Impulsividade é agir sem pensar. Veja o significado, os sinais de uma pessoa impulsiva e como identificar e lidar com o comportamento impulsivo.
04.12.2021 | João Vitor Santos
Impulsividade é a tendência a agir sem planejamento, de forma prematura, arriscada e inapropriada para a situação, quase sempre ligada a resultados indesejáveis. Pode ser um traço de personalidade ou sintoma de transtornos como o borderline. Felizmente, existem tratamentos, como a psicoterapia, para colocar os comportamentos impulsivos sob controle.
O que é impulsividade?
Impulsividade, ou comportamento impulsivo, é definida (de maneira geral) como ações tomadas sem planejamento ou que são mal concebidas, expressas prematuramente, desnecessariamente arriscadas e inapropriadas para a situação. A impulsividade é mais frequentemente associada com resultados indesejáveis do que desejáveis.
Apesar de não ser exclusiva de pessoas com transtorno de personalidade borderline (TPB), se você tem essa condição é possível que haja um esforço constante para controlar comportamentos impulsivos. Desde fazer decisões apressadas até entrar em brigas, a impulsividade pode colocar você e as pessoas ao seu redor em risco.
Além de desgastar seus relacionamentos e sua sensação de bem-estar em geral, comportamentos impulsivos também podem levar a problemas financeiros e legais, se não forem abordados.
Felizmente, existem tratamentos para colocar a impulsividade sob controle, como a psicoterapia, Mindfulness e medicamentos.
Características
De acordo com o manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5), comportamentos impulsivos são uma marca do transtorno de personalidade borderline.
Uma pessoa impulsiva geralmente é descrita como:
- Pavio curto;
- Explosiva;
- Imprevisível;
- Instável.
A instabilidade, aliás, é o que melhor caracteriza o TPB como um transtorno. Pessoas com TPB geralmente lutam contra os sentimentos de inadequação que se manifestam com emoções, comportamentos e relacionamentos instáveis. Elas podem explodir com facilidade por causa de coisas pequenas e geralmente terão muita dificuldade para reconhecer como essas reações são excessivas ou desproporcionais.
Em termos psicológicos, comportamentos impulsivos são ações ou reações intrinsicamente inapropriadas em termos de proporção ou de potencial risco. Uma pessoa com TPB tem menos chances de levar em conta as potenciais consequências de seus atos e frequentemente recorrerão a comportamentos autodestrutivos (como comer ou beber demais) como mecanismo de enfrentamento.
Entretanto, comportamentos impulsivos por si só não justificam um diagnóstico de TPB. É apenas quando os comportamentos são constantes, danosos e passam a interferir com a capacidade da pessoa de funcionar normalmente que um diagnóstico de TPB pode ser considerado.
Impulsividade não deve ser confundida com compulsão, onde a pessoa reconhece que tem um comportamento anormal, mas é incapaz de evitá-lo. No caso da impulsividade, a pessoa vai agir sem necessariamente ponderar se seu comportamento é anormal ou não. Falamos dessa distinção em detalhe mais adiante, mas se você quer entender melhor o padrão em geral, vale a leitura sobre o comportamento impulsivo.
Diagnóstico
Não existe um exame específico para confirmar se a impulsividade de uma pessoa é causada pelo transtorno de personalidade borderline ou alguma outra condição. Se há suspeita de TPB, o médico fará testes para determinar se os sintomas apresentados são consistentes com aqueles descritos no DSM-5.
Dito isto, a pessoa precisa atender dois principais critérios para o TPB:
1: Uma deficiência no funcionamento da personalidade, seja em termos de autoimagem ruim e auto criticismo, ou de instabilidade de metas, aspirações, valores e planos de carreira.
2: Uma deficiência no funcionamento interpessoal, seja em termos de falta de empatia ou como incapacidade de manter intimidade (devido a falta de confiança, carência ou medo de abandono).
Ambos os critérios devem ser atendidos para que o diagnóstico de TPB seja feito. Para evitar diagnósticos incorretos, é importante explorar e descartar todas as outras possibilidades, tanto físicas quanto psicológicas.
Outros diagnósticos possíveis
Comportamentos impulsivos não são uma exclusividade do transtorno de personalidade borderline. Eles também são associados com:
- Causas físicas da impulsividade, como lesão cerebral ou doença neurodegenerativa, como Mal de Alzheimer ou doença de Huntington;
- Mania bipolar, geralmente associada com grandiosidade e uma torrente de ideias (durante um episódio maníaco agudo, a pessoa geralmente age impulsivamente sem pensar nas consequências. Gastos compulsivos e comportamentos hiper sexuais são exemplos comuns da impulsividade associada com o transtorno bipolar);
- Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), estimulada pela incapacidade da criança de ficar quieta ou de controlar comportamentos inapropriados (é a falta de controle junto com uma mudança constante de focos de interesse que produzem a impulsividade);
- Transtornos de uso de substâncias, embora a impulsividade seja mais comumente exibida sob o efeito de drogas, quando se deseja usar drogas ou durante a procura ativa por drogas;
- Transtorno de personalidade antissocial, bastante parecida com o TPB, mas distinta pelo fato de que há uma desconsideração persistente pela moral, normas sociais e os direitos e pensamentos de outros.
Com o transtorno de personalidade borderline, a pessoa terá emoções extremas que ela achará difíceis de controlar. Com o transtorno de personalidade antissocial, há uma característica ausência de emoções.
Causas
Ninguém sabe exatamente o que causa o transtorno de personalidade borderline, tampouco o que causa comportamentos impulsivos no TPB.
Fatores psicológicos
Existe alguma evidência de que o TPB é provocado pelo transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), particularmente se o trauma aconteceu na infância.
Genética
Estudos sobre o comportamento de gêmeos sugerem que a genética pode desempenhar um papel maior do que o imaginado no TPB. Acredita-se que um erro genético no cromossomo 9 pode estar ligado a aspectos do TPB, incluindo a hereditariedade parcial da agressão impulsiva.
Mutações como essa podem alterar o nível de produção da serotonina e dopamina, neurotransmissores associados com humor e cognição. Nas pessoas com TPB, a impulsividade pode estar intimamente relacionada aos receptores de dopamina do cérebro.
Se esses receptores são afetados de qualquer maneira - principalmente os do lobo frontal do cérebro, onde decisões lógicas são tomadas, a pessoa pode ter menos capacidade de “pensar com calma” antes de agir.
Esses receptores defeituosos também explicariam porquê pessoas com TPB geralmente têm sentimentos de vazio e autodesprezo, característicos da depressão. Sem os meios de receber e transmitir a dopamina eficientemente, a pessoa é menos capaz de exercer o autocontrole ou sustentar uma sensação de bem-estar.
É a combinação de fatores ambientais, genéticos e psicológicos que cria as condições perfeitas para o desenvolvimento do transtorno de personalidade borderline e da impulsividade associada.
Tipos
Existem vários tipos de comportamentos diferentes que podem se tornar impulsivos com o TPB, cada situação é diferente. Existem, entretanto, temas e cenários que são comuns em pessoas com TPB, incluindo:
- Mudar ou cancelar planos abruptamente;
- Comer ou beber em excesso;
- Se desfazer de pertences para “começar de novo”;
- “Virar a página” frequentemente;
- Destruir propriedade;
- Elevar o tom durante conflitos;
- Surtos emocionais frequentes;
- Incapacidade de receber críticas sem se ofender;
- Se juntar e sair de vários grupos;
- Chegar a conclusões precipitadas;
- Sexo sem sentido ou inseguro;
- Se desculpar demais;
- Compartilhar demais suas emoções com pessoas não tão íntimas;
- Gastar demais;
- Violência física;
- Se demitir de repente;
- Automutilação;
- Ameaçar ferir a si ou aos outros.
Impulsividade e TDAH
A impulsividade é um dos três sintomas centrais do transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), ao lado da desatenção e da hiperatividade. No TDAH, ela costuma se manifestar como interromper conversas, responder antes que a pergunta termine, ter dificuldade de esperar a vez, tomar decisões apressadas e falar ou agir sem filtrar as consequências.
Essa impulsividade tem uma origem específica: no TDAH há uma dificuldade de regulação das funções executivas do cérebro, que são as responsáveis por planejar, inibir respostas e postergar a gratificação. Por isso a pessoa "sabe" o que deveria fazer, mas tem menos capacidade de segurar o impulso no momento em que ele aparece.
No Brasil, o Ministério da Saúde estima que entre 5% e 8% da população mundial apresenta TDAH, e no país a prevalência é estimada em cerca de 7,6% em crianças e adolescentes de 6 a 17 anos. Ainda assim, nem toda pessoa impulsiva tem TDAH: o diagnóstico exige uma avaliação clínica cuidadosa com um psicólogo e, quando indicado, um psiquiatra, já que a impulsividade também aparece em outras condições.
Impulsividade emocional
A impulsividade emocional acontece quando a reação a uma emoção intensa vem antes de qualquer pausa para pensar. É a pessoa que explode diante de uma frustração pequena, manda a mensagem no calor do momento, chora ou se retira de forma abrupta e depois se arrepende. Aqui o gatilho não é o tédio nem a busca de recompensa, e sim a dificuldade de tolerar e regular o que se está sentindo.
Esse padrão é comum no transtorno de personalidade borderline, mas também aparece no TDAH, na ansiedade e em pessoas sem qualquer transtorno que estão sobrecarregadas ou dormindo mal. A boa notícia é que a regulação emocional é uma habilidade treinável: reconhecer a emoção, dar nome a ela e criar um pequeno intervalo entre sentir e agir já reduz muito a reatividade.
Impulsividade alimentar e compulsão
A impulsividade alimentar é comer de forma automática e sem planejamento, quase sempre em resposta a um gatilho emocional como estresse, tristeza, tédio ou ansiedade, e não à fome física. Quando esses episódios se tornam frequentes, com grande quantidade de comida, sensação de perda de controle e culpa depois, o quadro pode configurar compulsão alimentar.
Vale notar a diferença: o impulso alimentar é a vontade súbita de comer algo, enquanto a compulsão envolve a repetição do comportamento apesar do sofrimento que ele causa. Estratégias que ajudam incluem comer com atenção plena, identificar a fome emocional, planejar as refeições e criar uma pausa consciente entre a vontade e o ato de comer. Quando o padrão persiste, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma das abordagens com melhor evidência, e um psicólogo pode conduzir esse trabalho.
Impulsividade em crianças
Em crianças, um certo grau de impulsividade é esperado, já que o autocontrole ainda está em desenvolvimento. Preocupa quando a criança age de forma persistentemente mais impulsiva do que outras da mesma idade: interrompe o tempo todo, tem dificuldade de esperar, reage com agressividade a frustrações pequenas, se coloca em risco sem medir consequências ou não consegue seguir regras simples.
Nesses casos, a impulsividade pode fazer parte do TDAH ou refletir dificuldades emocionais e de desenvolvimento socioemocional. O caminho é evitar rótulos apressados e buscar uma avaliação com um psicólogo infantil. No dia a dia, rotinas previsíveis, instruções claras, elogios ao comportamento desejado e o ensino de pausas ("parar, pensar, escolher") ajudam a criança a fortalecer o próprio freio interno.
Impulsividade e compulsividade: qual a diferença
Impulsividade e compulsividade são frequentemente confundidas, mas funcionam de maneiras diferentes:
- Impulsividade: a ação é espontânea, movida por um impulso do momento e pela busca de recompensa ou alívio imediato. A pessoa age antes de ponderar e, muitas vezes, só percebe o problema depois.
- Compulsividade: a ação é repetitiva e ritualizada, feita para reduzir uma ansiedade ou tensão. A pessoa reconhece que o comportamento é excessivo ou irracional, mas não consegue evitá-lo, como acontece no transtorno obsessivo-compulsivo.
De forma simples: o impulso empurra para a frente ("faça agora"), enquanto a compulsão prende num ciclo ("preciso repetir para aliviar"). Muitas pessoas apresentam os dois padrões, e é comum que apareçam juntos em quadros de ansiedade e de uso de substâncias.
Tratamento
Apesar de comportamentos impulsivos serem potencialmente severos e recorrentes, eles podem ser frequentemente controlados através de tratamento. Muitos tratamentos contra o TPB têm componentes que abordam a impulsividade especificamente.
Psicoterapia
A terapia comportamental dialética (TCD) se concentra em desenvolver habilidades que reduzem seus comportamentos impulsivos e aumentam sua capacidade de pensar e refletir antes de agir. Ao usar mecanismos de enfrentamento para lidar com emoções extremas, uma pessoa com TPB fica melhor equipada para lidar com situações sem recorrer ao confronto.
Procure por um psicólogo com especialidade em transtorno de personalidade borderline clicando aqui.
O Mindfulness é uma habilidade ensinada na TCD. Ele te encoraja a permanecer no momento, o que pode ajudar a manter você consciente de suas ações de forma que você possa considerar as consequências.
Praticar essa técnica pode incentivar você a refletir sobre suas opções sem pressa, permitindo reações mais racionais sobre os eventos à sua volta.
Além da terapia comportamental dialética (também chamada de DBT), a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma das abordagens com melhor base de evidência para a impulsividade, porque ajuda a identificar os pensamentos e gatilhos que antecedem a ação e a construir respostas alternativas.
Como funciona no Brasil
No Brasil, a avaliação e o tratamento da impulsividade são feitos por profissionais habilitados: o psicólogo, inscrito no Conselho Regional de Psicologia (CRP), conduz a psicoterapia, e o médico psiquiatra, inscrito no Conselho Regional de Medicina (CRM), avalia a necessidade de medicação. Você pode buscar esse cuidado de forma gratuita pelo SUS, nas Unidades Básicas de Saúde e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), ou na rede privada e online, encontrando um psicólogo ou, quando a questão envolve medicação, um psiquiatra. Se você ainda não sabe por onde começar, a página de terapia e psiquiatria ajuda a entender qual profissional procurar.
Medicação
Em alguns casos, a medicação também pode ajudar, principalmente quando o comportamento é extremo e apresenta risco para você ou para terceiros. A decisão sobre usar ou não remédios, qual e por quanto tempo é sempre individual e deve ser feita por um médico psiquiatra, que avalia o quadro completo antes de qualquer prescrição.
Nunca inicie, troque ou interrompa medicação por conta própria. Os remédios costumam ser mais eficientes quando usados junto com a psicoterapia, e não no lugar dela.
Enfrentamento
Além de seguir seu plano de tratamento e falar com um terapeuta, existem passos que você pode dar para lidar melhor com sua impulsividade.
Geralmente, o primeiro passo é identificar os comportamentos impulsivos que você gostaria de mudar. A seguir, você pode tentar uma das estratégias abaixo quando sentir um ímpeto de adotar um desses comportamentos:
Realize uma análise em cadeia que permita que você:
- Identifique o comportamento impulsivo e o que está provocando-o;
- Avalie seus sentimentos e pensamentos;
- Considere as consequências.
Junte-se a um grupo de apoio. Se você não tem recursos como amigos ou familiares de confiança, juntar-se a um grupo de apoio pode ser útil em controlar seu comportamento impulsivo. Também te dará a oportunidade de falar com outros sobre o que tem (ou não) funcionado para eles no controle desses comportamentos.
Substitua comportamentos impulsivos por saudáveis. Apesar de a impulsividade ser capaz de causar um bem-estar de curto prazo (eliminando o medo ou a ansiedade, por exemplo), existem meios mais saudáveis e sustentáveis de lidar com uma situação adversa. Caminhada, escrever um diário, falar com uma pessoa de confiança ou voluntariado são alguns exemplos.
Pratique a respiração profunda. Respirar fundo é uma boa maneira de controlar o estresse, o que pode ajudar você a regular seu humor e evitar reações impulsivas.
Como controlar a impulsividade em situações específicas
A impulsividade aparece de formas diferentes em cada contexto, e as estratégias mais úteis mudam junto. O princípio comum é sempre criar uma pausa entre o impulso e a ação: quanto maior esse intervalo, maior a chance de escolher em vez de apenas reagir.
Como controlar a impulsividade de comprar
Compras por impulso costumam aliviar uma emoção momentânea. Ajuda adotar uma "regra das 24 horas" antes de comprar itens não essenciais, tirar cartões salvos de sites, definir um orçamento por categoria e fazer uma lista antes de sair ou de entrar em lojas online. Perguntar "eu quero isso ou estou tentando me sentir melhor?" separa a necessidade real do gatilho emocional.
Como controlar a impulsividade de falar
Falar por impulso, interromper ou dizer algo de que se arrepende melhora com pequenas técnicas: respirar antes de responder, contar até três, repetir mentalmente o que você vai dizer e se perguntar se aquilo é necessário e no momento certo. Em conversas difíceis, avisar "preciso de um instante para pensar" é uma forma legítima de ganhar tempo.
Como controlar a impulsividade no relacionamento
Nos relacionamentos, a impulsividade aparece como brigas explosivas, mensagens no calor do momento e decisões drásticas. Aqui o mais eficaz é o "tempo": afastar-se por alguns minutos quando a emoção sobe, evitar tomar decisões importantes enquanto está tomado pela raiva ou pelo medo, e retomar a conversa depois, já mais regulado. Trabalhar o autocontrole e a comunicação com apoio profissional faz grande diferença.
Como controlar a impulsividade na ansiedade
Quando a impulsividade vem da ansiedade, a ação impulsiva costuma ser uma tentativa de aliviar rápido o desconforto. Técnicas de respiração, aterramento (focar nos cinco sentidos) e a prática de tolerar a incerteza por alguns minutos reduzem a urgência de agir. Tratar a ansiedade de base, com psicoterapia, tende a diminuir a impulsividade que vem dela.
Lembre-se
Se as estratégias sozinhas não bastam, ou se a impulsividade já traz prejuízos importantes, o acompanhamento com um psicólogo é o passo mais consistente. O profissional ajuda a mapear seus gatilhos, treinar habilidades de regulação e sustentar as mudanças ao longo do tempo.