Como Terminar um Relacionamento Tóxico?
Descubra aqui por que é difícil deixar um relacionamento tóxico e confira como sair de um relacionamento tóxico em 6 passos
06.04.2023 | João Vitor Santos
Para terminar um relacionamento tóxico, construa sua rede de apoio social, busque independência (inclusive financeira), conte com família e amigos, procure ajuda profissional, corte o contato com a outra pessoa e cuide de si mesmo ao sair. Se houver risco à sua segurança, planeje a saída com cuidado e acione as autoridades.
Um bom relacionamento pode elevar sua vida de maneiras que você nunca pensou serem possíveis. Um mau pode deixá-lo com o coração partido, deprimido e apático. Relacionamentos tóxicos são mais comuns do que você imagina, e seus efeitos podem ser incapacitantes.
Relacionamentos tóxicos e doentios costumam ser desconcertantes para as pessoas de fora. Certamente, se alguém o deixa infeliz ou é fisicamente ou emocionalmente abusivo, a decisão óbvia é deixá-lo - certo? A realidade costuma ser mais complicada devido a muitos fatores, incluindo finanças, filhos e emoções. Para deixar um relacionamento tóxico, você deve:
- Construa seu suporte social;
- Explore maneiras de se tornar mais independente;
- Apoie-se na família, amigos e outras pessoas ao sair;
- Obtenha ajuda de profissionais, incluindo um terapeuta, advogado ou policial;
- Corte o contato com a outra pessoa;
- Cuide de si mesmo ao sair do relacionamento tóxico.
O que é um relacionamento tóxico?
Um relacionamento tóxico é aquele que é prejudicial. Embora alguns sinais de um relacionamento tóxico sejam mais óbvios, como abuso físico, infidelidade repetida e comportamento sexual inadequado, outros podem ser mais difíceis de detectar. Pode envolver comportamento desrespeitoso, desonesto ou controlador. Por exemplo, seu parceiro o derruba com frequência. Como resultado, sua saúde mental pode começar a sofrer.
Abuso e Violência Doméstica
Embora um relacionamento não precise envolver abuso para ser considerado tóxico, todos os relacionamentos abusivos são tóxicos. O abuso pode se manifestar de diferentes maneiras, incluindo emocional, verbal, econômica, sexual e física.
Sinais de um relacionamento abusivo podem aparecer em violência física ou sexual, xingamentos, humilhação ou ameaças. Esses tipos de relacionamento são tipicamente caracterizados por comportamentos possessivos e controladores. Se você está sofrendo algum tipo de abuso, saiba que não merece viver dessa forma e procure apoio imediatamente.
No Brasil, a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher e prevê medidas de proteção à vítima. Você pode acionar o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou o Disque 100 (Disque Direitos Humanos, para pessoas em situação de vulnerabilidade) para denúncia e orientação de forma gratuita e sigilosa. Em situação de perigo imediato, ligue para a polícia (190). Se em algum momento você tiver pensamentos de tirar a própria vida ou de desistir de tudo, ligue para o CVV (188), disponível 24 horas, de forma gratuita e sigilosa.
Sinais de um relacionamento tóxico
Antes de decidir terminar, pode ajudar reconhecer com clareza o que caracteriza uma relação que faz mal. Nem sempre os sinais são óbvios, e muitas pessoas convivem anos com o desgaste sem nomear o que sentem. Alguns sinais frequentes de um relacionamento tóxico são:
- Críticas e humilhações constantes: você é diminuído, ridicularizado ou corrigido o tempo todo, em particular ou na frente de outras pessoas;
- Controle e ciúme excessivos: o parceiro decide com quem você fala, o que veste, para onde vai ou como gasta seu dinheiro;
- Gaslighting: você é levado a duvidar da própria memória e percepção, a ponto de achar que está sempre errado ou exagerando;
- Isolamento: aos poucos você se afasta de amigos e da família, ficando cada vez mais dependente da relação;
- Instabilidade emocional: momentos de carinho intenso se alternam com explosões, silêncio punitivo ou ameaças, deixando você sempre em alerta;
- Queda da autoestima: você se sente ansioso, culpado e sem valor, e sua saúde mental piora com o tempo.
Vale diferenciar tóxico de abusivo: um relacionamento tóxico é aquele que, de forma recorrente, prejudica seu bem-estar. Quando aparecem agressões físicas ou sexuais, ameaças, coerção ou controle que colocam você em risco, a relação também é abusiva e exige apoio e proteção imediatos.
Por que é difícil deixar um relacionamento tóxico
As pessoas ficam presas em padrões de relacionamento que podem ser difíceis de romper. Alguns podem se sentir presos financeiramente ou se preocupar com seus filhos. Em relacionamentos abusivos, as vítimas fazem em média sete tentativas de terminar o relacionamento antes de terminarem, de acordo com a National Domestic Violence Hotline. Aqui estão as razões pelas quais as pessoas acham difícil sair de um relacionamento tóxico:
- Medo: Em relacionamentos abusivos, é provável que um dos parceiros seja extremamente manipulador em relação ao outro. Isso geralmente envolve fazer ameaças físicas, emocionais ou financeiras se a outra pessoa falar em ir embora. Como resultado, a vítima pode ter medo de deixar seu parceiro;
- Filhos: Para casais que têm filhos juntos, pode ser muito desafiador partir devido ao impacto negativo percebido nos filhos. Também pode haver preocupações sobre custódia;
- Amor: Pode haver sentimentos persistentes de amor mantendo alguém em um relacionamento;
- Finanças: Se um parceiro depende financeiramente do outro, isso pode complicar a logística envolvida na saída;
- Vergonha: Muitas pessoas escondem a natureza de seus relacionamentos de seus amigos, familiares e conhecidos. Como resultado, eles sofrem silenciosamente porque têm vergonha de pedir ajuda a alguém. Eles podem recorrer às drogas ou ao álcool em busca de consolo, piorando o preço que o relacionamento está cobrando;
- Codependência: pode ser difícil se livrar de uma dinâmica de relacionamento desequilibrada em que um parceiro sempre dá e o outro recebe, como nos relacionamentos codependentes.
Se você está em um relacionamento tóxico há muito tempo, pode ser difícil ver uma saída. Você pode até acreditar que é realmente a causa do problema. Sentir-se assim é um fenômeno comum, já que o perpetrador do relacionamento costuma ser um especialista em gaslighting, o que o deixa questionando a realidade.
Além disso, outras complicações podem surgir se seu parceiro tiver um transtorno de personalidade narcisista (TPN), que é um transtorno de personalidade caracterizado por ter um senso exagerado de auto-importância e falta de empatia.
Um estudo de 2019 do SAGE Open sugere que as explosões de agressividade de parceiros narcisistas se deviam ao medo de abandono no relacionamento. Isso pode fazer com que um indivíduo narcisista ataque ou tente impedir que seu parceiro saia - por exemplo, por meio de manipulação, bancando a vítima.
Outro fator que prende as pessoas é o ciclo de abuso narcisista. Ele costuma seguir fases que se repetem: idealização (o parceiro é encantador e atencioso), desvalorização (críticas, controle e humilhações) e descarte ou reconciliação, muitas vezes com pedidos de desculpas e promessas de mudança. Como os bons momentos voltam de tempos em tempos, fica difícil enxergar o padrão e fácil acreditar que "vai melhorar".
A esse ciclo se soma a dependência emocional: quando a sua sensação de segurança e de valor passa a depender da aprovação do outro, terminar parece insuportável, mesmo diante de sofrimento evidente. Em dinâmicas de codependência, você pode assumir a responsabilidade pela felicidade do parceiro e adiar a própria saída indefinidamente. Reconhecer que amar alguém não obriga você a permanecer em uma relação que faz mal é um passo importante, ainda que doloroso.
Como Deixar um Relacionamento Tóxico em 6 Passos
Terminar um relacionamento ruim pode ser muito complicado, mas quanto antes você sair de um relacionamento tóxico, melhor. Aqui estão algumas coisas que você pode fazer para facilitar o processo:
- Construa uma rede de segurança: se você está pensando em desistir, faça um plano de como vai lidar com a transição. Onde você vai ficar? Quais bens você precisará trazer? Não faça isso ao acaso. Este processo deve ser bem pensado;
- Estabeleça uma meta para ser independente: Se você não tem uma carreira ou uma maneira de se sustentar, é hora de começar a trilhar esse caminho. Vá para a escola, obtenha treinamento, comece um trabalho (mesmo um emprego de baixo nível ou de meio período). Sua independência financeira é um dos principais caminhos para a liberdade;
- Deixe alguém saber: Não há mais segredos. Confie em um membro da família ou amigo para que eles possam ajudá-lo no processo. Se se sentir ameaçado, informe as autoridades locais que vai precisar de ajuda;
- Procure ajuda profissional: sair e se recuperar de um relacionamento tóxico exigirá esforço e tempo. Entre em contato com grupos de apoio ou conselheiros com experiência em problemas de relacionamento. Um terapeuta pode ser um ótimo recurso imparcial para guiá-lo e responsabilizá-lo por criar e atingir seus objetivos. Um advogado de direito de família experiente também é necessário se você estiver deixando um casamento;
- Pare de falar com seu parceiro: Pessoas tóxicas são muito astutas e podem usar chantagem emocional para atraí-lo de volta. Nesse caso, comunique apenas sobre as crianças. Se você precisar entrar com uma ordem de restrição, faça isso;
- Mime-se: fazer parte de um relacionamento tóxico é extremamente prejudicial para sua autoestima e saúde mental. Pode levar algum tempo até que você esteja pronto para fazer parte de outro relacionamento. Não apresse isso. Tire um tempo para você. Para se recuperar, reserve um tempo para hobbies. Comece a trabalhar em um projeto de estimação ou em seu próprio negócio. Faça aquela viagem que você sempre quis fazer.
Passo a passo para terminar com segurança (plano de saída)
Quando existe risco de agressão, ameaça ou retaliação, a forma como você sai importa tanto quanto a decisão de sair. Um plano de saída ajuda a reduzir riscos e a manter você no controle da situação. Adapte estes passos à sua realidade:
- Reúna documentos e recursos essenciais: guarde em local seguro (ou com alguém de confiança) cópias de documentos de identidade, cartões, chaves, remédios e um pouco de dinheiro, se possível;
- Defina para onde ir: identifique com antecedência a casa de um familiar, de um amigo ou um serviço de acolhimento, para não decidir isso no momento de maior tensão;
- Combine um código com alguém de confiança: uma palavra ou mensagem simples pode avisar que você precisa de ajuda urgente sem levantar suspeitas;
- Cuide da sua segurança digital: troque senhas, revise a localização compartilhada no celular e evite anunciar seus planos em redes sociais;
- Escolha um momento mais seguro para sair: de preferência quando o parceiro não estiver presente, reduzindo a chance de confronto;
- Considere medidas de proteção legais: a Lei Maria da Penha prevê medidas protetivas de urgência, que podem ser solicitadas na delegacia (inclusive nas Delegacias de Atendimento à Mulher) ou pelos canais oficiais;
- Tenha os contatos de emergência à mão: em perigo imediato, ligue para a polícia (190). Para denúncia e orientação gratuitas e sigilosas, use o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou o Disque 100 (pessoas em situação de vulnerabilidade). Se surgirem pensamentos de desistir de tudo, o CVV (188) atende 24 horas.
Você não precisa organizar tudo isso sozinho. Um psicólogo pode ajudar a estruturar o plano com segurança emocional, e serviços públicos como o CAPS e as unidades do SUS oferecem apoio em saúde mental de forma gratuita.
Como se recuperar depois de terminar
Sair é uma etapa; se recuperar é outra, e costuma levar tempo. Nos primeiros dias pode surgir alívio misturado com saudade, culpa e vontade de voltar, principalmente se o parceiro tentar reaproximação. Isso é comum e não significa que você errou. Alguns caminhos ajudam nessa reconstrução:
- Reconstrua sua rede de apoio: reaproxime-se de amigos e familiares dos quais você havia se afastado;
- Cuide da sua autoestima: relacionamentos tóxicos costumam corroer a autoimagem, e recuperá-la é parte central do processo;
- Estabeleça e mantenha limites: definir o que você aceita e o que não aceita protege você de recaídas e de novos vínculos com o mesmo padrão;
- Respeite o seu tempo: não se cobre para "superar rápido" nem para entrar logo em outro relacionamento;
- Busque acompanhamento: um terapeuta ajuda a processar o que aconteceu, a entender o que atraiu você para essa dinâmica e a seguir em frente com mais segurança. Quando há sintomas persistentes de ansiedade ou depressão, um tratamento adequado faz diferença.
Uma última dica
Estar em um relacionamento tóxico é difícil e você pode até se sentir preso. Você merece ser feliz e se livrar do mal e da negatividade que isso está lhe causando. Deixar um relacionamento doentio e tóxico é um passo tremendamente difícil e corajoso, mas você pode fazê-lo.
Para encontrar felicidade e conforto em sua vida novamente, você deve pular. Tem gente boa por aí. Não deixe essa experiência sabotar sua busca pela alegria. Entre em contato com um profissional de saúde mental se estiver tendo problemas para lidar ou precisar de ajuda para criar limites.