O Que É Estigma?
Veja aqui tudo o que você precisa saber sobre estigma e a relação entre doenças mentais e estigma
04.04.2023 | João Vitor Santos
Estigma são atitudes negativas ou discriminação contra alguém por uma característica distintiva, como uma doença mental. O conceito foi consolidado pelo sociólogo Erving Goffman, que o definiu como um atributo que desvaloriza a pessoa aos olhos da sociedade. No campo da saúde mental, o estigma continua comum e é um dos principais fatores que atrasam o tratamento e reduzem as chances de a pessoa receber cuidados adequados. Ele costuma ser dividido em estigma social (público), autoestigma (internalizado) e estigma estrutural.
Estigma
O estigma envolve atitudes negativas ou discriminação contra alguém com base em uma característica distintiva, como doença mental, condição de saúde ou deficiência. Os estigmas sociais também podem estar relacionados a outras características, incluindo gênero, sexualidade, raça, religião e cultura.
Infelizmente, o estigma em torno da saúde mental ainda é comum. Embora o estigma não se limite às condições mentais, as atitudes em relação às doenças psiquiátricas tendem a ser mais negativas do que em relação às condições médicas.
A pesquisa mostrou que o estigma é um dos principais fatores de risco que contribuem para resultados ruins de saúde mental. O estigma leva a atrasos no tratamento. Também reduz as chances de que uma pessoa com doença mental receba cuidados apropriados e adequados.
Estigma: significado da palavra
A palavra estigma tem origem no grego antigo. Estigma era a marca feita a ferro quente ou por corte na pele para identificar escravos, criminosos ou traidores, um sinal visível que apontava algo considerado ruim ou impuro naquela pessoa. Com o tempo, o sentido se ampliou: hoje estigma significa qualquer marca, física ou simbólica, que desvaloriza alguém aos olhos da sociedade e leva ao rótulo, à vergonha ou à discriminação.
No uso cotidiano, dizer que algo é um estigma quer dizer que aquela característica passou a definir e a diminuir a pessoa perante os outros. Na psicologia e na sociologia, o conceito de estigma descreve justamente esse processo de desvalorização social a partir de um atributo, como um transtorno mental, uma condição de saúde ou uma diferença física.
Estigma social: o conceito de Erving Goffman
O estudo mais influente sobre o tema é do sociólogo canadense Erving Goffman, no livro "Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada" (1963). Para Goffman, o estigma social é um atributo profundamente depreciativo que reduz a pessoa "de um ser humano completo e comum a um ser marcado, diminuído". O estigma não está na característica em si, mas na relação entre o atributo e o estereótipo que a sociedade associa a ele.
Goffman distingue a identidade social virtual (o que se espera de alguém) da identidade social real (o que a pessoa de fato é). Quando existe uma distância negativa entre as duas, surge o estigma. Ele também descreve categorias de estigma, como as marcas do corpo (deficiências físicas), as chamadas culpas de caráter individual (por exemplo, transtornos mentais, dependência química ou histórico de prisão) e os estigmas de grupo (raça, religião ou nacionalidade), transmitidos de geração em geração.
Exemplos de estigma social no dia a dia incluem:
- Evitar contato ou amizade com alguém depois de descobrir que essa pessoa tem um transtorno mental;
- Tratar quem passou por internação psiquiátrica como perigoso ou incapaz;
- Associar automaticamente pobreza, dependência química ou determinada religião a defeitos de caráter;
- Recusar-se a contratar uma pessoa por causa de um diagnóstico de saúde mental;
- Usar rótulos como "louco", "vagabundo" ou "aidético" para reduzir alguém à sua condição.
História do estigma da doença mental
A doença mental tem uma longa história de estigmatização nas sociedades em todo o mundo. De ser considerada a marca do diabo a ser considerada uma punição moral, as ideologias em torno da etiologia da doença mental variaram bastante.
Como resultado, o tratamento historicamente nem sempre fez sentido científico e tem sido brutal e desumano. Datando dos tempos neolíticos, trepanar, por exemplo, envolvia abrir um buraco no crânio da pessoa para liberar os espíritos malignos. O tratamento da doença mental percorreu um longo caminho desde então, mas os campos da psicologia e da psiquiatria são relativamente jovens e ainda têm um longo caminho a percorrer.
O estigma surgiu do medo e da falta de compreensão. Persistiu mesmo com maior conhecimento sobre as naturezas bioquímicas e genéticas de diferentes condições. A representação da doença mental na mídia de massa pode aumentar o estigma.
À medida que os cientistas continuam a aprender mais sobre as causas das doenças mentais e a desenvolver tratamentos eficazes, espera-se que o estigma diminua.
Sinais de estigma
Exemplos de como o estigma é perpetuado incluem:
- Representações de mídia onde o vilão é muitas vezes um personagem com uma doença mental;
- Estereótipos nocivos de pessoas com doença mental;
- Tratar problemas de saúde mental como se fossem algo que as pessoas podem superar se apenas "se esforçarem mais" ou "saírem dessa”;
- Usar frases como "ela é louca" ou "ele é louco" para descrever outras pessoas ou seu comportamento;
- Fantasias de Halloween que retratam pessoas com doenças mentais como violentas e perigosas.
Qualquer pessoa que tenha tido experiência com doença mental, pessoal ou profissionalmente, pode dizer que, apesar dos avanços na psiquiatria e na psicologia, ainda existe muito estigma. Embora as pessoas tenham se tornado mais informadas sobre os transtornos mentais em geral, o estigma continua sendo uma realidade.
Tipos de Estigma
O estigma associado à saúde mental costuma ser dividido em três tipos principais:
Estigma social (ou público)
É o estigma que vem de fora: as atitudes preconceituosas, os estereótipos e a discriminação que a sociedade dirige a quem tem um transtorno mental. Ele se manifesta em piadas, na exclusão, na recusa de emprego e moradia e na imagem distorcida que a mídia costuma reforçar.
Uma revisão de estudos de 2013 sobre o estigma público mostrou que ele ainda é generalizado, mesmo com o público mais consciente da natureza das diferentes condições de saúde mental. Muitas pessoas aceitam a base médica ou genética da doença e a necessidade de tratamento, mas ainda mantêm uma visão negativa de quem convive com esses quadros.
Autoestigma (estigma internalizado)
É o estigma auto percebido, ou seja, quando a própria pessoa absorve os preconceitos que circulam na sociedade e passa a aplicá-los a si mesma.
O autoestigma alimenta vergonha, culpa, sensação de fracasso e a crença de que "não vale a pena" pedir ajuda. Esse tipo de estigma internalizado está diretamente ligado a piores resultados de tratamento e à demora em procurar cuidado.
Estigma estrutural
É o estigma que se cristaliza em leis, políticas, práticas institucionais e na organização dos serviços. Aparece, por exemplo, quando planos de saúde limitam o número de sessões de terapia, quando há menos verba para saúde mental do que para outras áreas, ou quando pessoas com transtornos mentais têm dificuldade de acesso a direitos. No Brasil, boa parte do enfrentamento a esse estigma estrutural passou pela Reforma Psiquiátrica, tema que retomamos mais adiante.
Quão comum é o estigma?
As estimativas de prevalência sugerem que o estigma é comum, embora varie dependendo da população, condição e fatores individuais. Por exemplo, a prevalência de estigma percebido entre pessoas com esquizofrenia é de cerca de 62,6%. O autoestigma, que envolve atitudes negativas internalizadas, também é comum, afetando cerca de 54,4% das pessoas com transtornos psiquiátricos.
O estigma percebido leva a uma vergonha internalizada por ter uma doença mental. Verificou-se em um estudo de longo prazo que esse tipo de estigma internalizado leva a resultados de tratamento mais ruins.
Causas do estigma
O estigma da saúde mental tem sido atribuído a vários fatores diferentes. Algumas causas que potencialmente desempenham um papel incluem:
Estereótipos
Estereótipos generalizados e discriminatórios sobre pessoas com doenças mentais geralmente desempenham um papel importante no estigma. Por exemplo, as pessoas com doença mental costumam ser estereotipadas como violentas ou imprevisíveis. Embora esse estereótipo seja comum, a realidade é que as pessoas com doenças mentais têm muito mais probabilidade de serem vítimas de violência do que perpetrá-la.
Falta de consciência
Muitas pessoas simplesmente não têm consciência dos sintomas, causas, prevalência e tratamentos para doenças mentais. Essa falta de compreensão contribui para percepções ruins sobre as diferentes doenças mentais e as pessoas que as vivenciam.
Nos EUA, de acordo com o National Institute of Mental Health (Instituto Nacional de Saúde Mental norte-americano), cerca de um em cada cinco adultos, ou aproximadamente 52,9 milhões de pessoas, vive com uma doença mental. No Brasil, os números também são expressivos: segundo relatório da Organização Mundial da Saúde divulgado pela OPAS/OMS, os transtornos relacionados à ansiedade afetam 9,3% (18.657.943) das pessoas que vivem no país, o maior percentual do mundo, e a depressão atinge 5,8% da população brasileira (11.548.577). Esses dados ajudam a mostrar como problemas de saúde mental são comuns e por que o estigma, que afasta tanta gente do cuidado, precisa ser enfrentado.
Representações na mídia
As representações de pessoas com doenças mentais na mídia também desempenham um papel na perpetuação do estigma. As condições de saúde mental são muitas vezes retratadas de forma negativa, e os relatórios da mídia muitas vezes tentam vincular a atividade criminosa e a violência aos problemas de saúde mental.
Impacto do Estigma
As consequências do estigma podem ser graves e devastadoras. Com o estigma vem a falta de compreensão dos outros, o que pode ser invalidante e doloroso, mas o estigma também traz consequências mais sérias, incluindo alimentar o medo, a raiva e a intolerância dirigida a outras pessoas. As pessoas sujeitas ao estigma são mais propensas a experimentar:
- Relutância em procurar tratamento;
- Tratamento tardio, o que aumenta a morbidade e a mortalidade;
- Rejeição social, evitação e isolamento;
- Pior bem-estar psicológico;
- Pouco entendimento entre amigos e familiares;
- Assédio, violência ou bullying;
- Baixa qualidade de vida, incapacidade e aumento da carga socioeconômica;
- Aumento dos sentimentos de vergonha e insegurança.
O estigma em torno da saúde mental pode tornar menos provável que as pessoas procurem tratamento. Algumas condições podem piorar com o tempo sem tratamento, portanto, deixar de procurar tratamento acaba piorando os resultados.
O estigma também pode fazer com que as pessoas duvidem de si mesmas e de suas habilidades para atingir seus objetivos na vida. Também pode levar a sentimentos de vergonha e até isolamento. Pode tornar mais difícil para as pessoas encontrar empregos e moradia adequada.
Estigma e saúde mental no Brasil
No Brasil, o estigma sobre a doença mental está historicamente ligado ao modelo dos manicômios, em que pessoas com transtornos mentais eram isoladas, silenciadas e afastadas do convívio social. A resposta a esse cenário foi o movimento antimanicomial, ou luta antimanicomial, que a partir dos anos 1980 defendeu o fim das internações de longa permanência e o cuidado em liberdade.
Esse movimento culminou na Reforma Psiquiátrica e na aprovação da Lei nº 10.216, de 2001, que protege os direitos das pessoas com transtornos mentais, proíbe a discriminação e redireciona o cuidado para serviços comunitários, e não mais para o isolamento em hospitais psiquiátricos. A lei garante, entre outros pontos, o direito a informação sobre a doença e o tratamento, ao tratamento menos invasivo possível e ao cuidado, preferencialmente, em serviços de base comunitária.
Na prática, essa mudança se traduziu na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que tem nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) um de seus pilares. Ao tratar a pessoa perto de casa, no território e junto da comunidade, em vez de escondê-la, esse modelo ajuda a reduzir o estigma e a mostrar que quem tem um transtorno mental pode viver, trabalhar e conviver como qualquer outra pessoa. Campanhas de conscientização, como as promovidas pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), e ações como o Janeiro Branco também têm papel importante nesse enfrentamento.
Apesar dos avanços, o estigma ainda pesa. Muitas pessoas demoram a buscar ajuda com medo do julgamento, o que atrasa o tratamento e agrava o sofrimento. Falar abertamente sobre saúde mental e procurar cuidado profissional continua sendo uma das formas mais eficazes de romper esse ciclo.
Como combater o estigma
Superar o estigma não é fácil, mas existem etapas que você pode seguir para lidar com atitudes negativas sobre problemas de saúde mental. Há algumas coisas que você pode fazer para ajudar a combater o estigma social e o estigma auto percebido sobre a doença mental.
- Lembre-se de que muitas pessoas sofrem de doença mental: Se você tem um transtorno mental, saiba que não está sozinho. Como mostram os dados da OMS, milhões de brasileiros convivem com ansiedade e depressão;
- Encontre recursos de saúde mental: faça o que fizer, mantenha-se conectado com outras pessoas e obtenha apoio. No Brasil, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e as Unidades Básicas de Saúde do SUS oferecem acolhimento e tratamento gratuitos, e conselhos como o CFP disponibilizam materiais de conscientização;
- Junte-se a um grupo de apoio: considere entrar em um grupo de apoio onde você pode conversar com outras pessoas que tiveram experiências semelhantes. Esses grupos podem ser um ótimo lugar para encontrar apoio, camaradagem, encorajamento e dicas;
- Obtenha tratamento: Embora o estigma possa tornar menos provável que as pessoas procurem tratamento, obter a ajuda necessária pode ajudar com os sintomas e contribuir para uma melhor qualidade de vida. A terapia com um psicólogo pode ajudar as pessoas a aprender a identificar e mudar os pensamentos negativos que desempenham um papel no estigma. Quando há necessidade de avaliação de medicação, um psiquiatra também pode integrar o cuidado. No Brasil, o psicólogo tem registro no CRP (Conselho Regional de Psicologia) e o psiquiatra, no CRM (Conselho Regional de Medicina), e você pode encontrar tratamento com psicólogos e psiquiatras tanto no SUS quanto de forma online;
- Busque apoio social: o isolamento pode tornar a doença mental e o estigma mais difíceis de lidar. Infelizmente, não é incomum que pessoas com problemas de saúde mental evitem passar tempo com outras pessoas;
- Fale: eduque as pessoas ao seu redor sobre as realidades da doença mental, incluindo o quão comum é, e fale ativamente contra o estigma. Desmistifique mitos sobre doenças mentais, como a ideia de que pessoas com esquizofrenia geralmente são violentas. Se um membro da família ou amigo fizer um comentário depreciativo sobre alguém com doença mental, eduque-o e tenha uma política de não tolerância.
Embora o estigma continue a existir, ele pode eventualmente ser eliminado com maior educação e conscientização sobre doenças mentais.