O Que É Percepção?
Percepção na psicologia: entenda o que é, como o cérebro interpreta os estímulos dos cinco sentidos, os tipos e como ser mais perspicaz.
10.02.2023 | João Vitor Santos
Percepção é o processo pelo qual o cérebro organiza e interpreta os estímulos captados pelos sentidos (visão, audição, tato, olfato, paladar e propriocepção), transformando-os em uma experiência consciente do ambiente. Ela funciona como um filtro que nos permite reconhecer, dar sentido e responder ao mundo ao nosso redor.
A percepção refere-se à nossa experiência sensorial do mundo. É por meio dessa experiência que obtemos informações sobre o ambiente ao nosso redor.
O significado de percepção, em poucas palavras, é o processo pelo qual o cérebro organiza, interpreta e dá sentido aos estímulos captados pelos sentidos. Em outras palavras, perceber não é apenas receber informação, mas construir uma leitura consciente daquilo que sentimos.
A percepção depende das funções cognitivas que usamos para processar informações, como utilizar a memória para reconhecer o rosto de um amigo ou detectar um cheiro familiar. Através do processo de percepção, somos capazes de identificar e responder aos estímulos ambientais.
Sensação e percepção: qual a diferença?
É comum confundir sensação e percepção, mas são etapas distintas. A sensação é o registro bruto de um estímulo pelos órgãos dos sentidos: a luz que atinge a retina, a onda sonora que chega ao ouvido, a pressão sobre a pele. A percepção é o passo seguinte, quando o cérebro organiza, interpreta e atribui significado a essas sensações.
Um exemplo simples: a sensação é enxergar manchas de cor e contornos; a percepção é reconhecer que aquilo é o rosto de um amigo. Sem sensação não há matéria-prima para perceber, mas é a percepção que transforma dados isolados em uma experiência coerente. Essa distinção é um dos temas centrais no estudo da cognição na psicologia.
Percepção em Psicologia
A American Psychological Association - APA (Associação Americana de Psicologia) define a percepção como "o processo ou resultado de tornar-se consciente de objetos, relacionamentos e eventos por meio dos sentidos, o que inclui atividades como reconhecer, observar e discriminar".
A percepção inclui os cinco sentidos: tato, visão, audição, olfato e paladar. Também inclui o que é conhecido como propriocepção, que é um conjunto de sentidos que nos permite detectar mudanças na posição e no movimento do corpo.
Muitos estímulos nos cercam a qualquer momento. A percepção atua como um filtro que nos permite existir e interpretar o mundo sem nos deixarmos dominar por essa abundância de estímulos.
No Brasil, a percepção é um tema estudado dentro da psicologia cognitiva e da neuropsicologia. Quando alterações perceptivas passam a interferir na rotina, um psicólogo com registro ativo no Conselho Regional de Psicologia (CRP) é o profissional indicado para avaliar cada caso individualmente.
Tipos de Percepção
Os tipos de percepção são muitas vezes separados pelos diferentes sentidos. Isso inclui percepção visual, percepção de cheiro, percepção de toque, percepção de som e percepção de sabor. Percebemos nosso ambiente usando cada um deles, muitas vezes simultaneamente.
Existem também diferentes tipos de percepção em psicologia, incluindo:
- A percepção da pessoa refere-se à capacidade de identificar e usar dicas sociais sobre pessoas e relacionamentos;
- A percepção social é como percebemos certas sociedades e pode ser afetado por coisas como estereótipos e generalizações.
- Outro tipo de percepção é a percepção seletiva. Isso envolve prestar atenção a algumas partes do nosso ambiente e ignorar outras.
Os diferentes tipos de percepção nos permitem experimentar nosso ambiente e interagir com ele de maneiras apropriadas e significativas. A seguir, detalhamos os principais tipos com definições e exemplos práticos.
Percepção sensorial
A percepção sensorial é a base de todas as demais: é o processo pelo qual o cérebro interpreta as informações que chegam pelos órgãos dos sentidos. Ela reúne visão, audição, tato, olfato, paladar e a propriocepção. Um exemplo é sentir que uma xícara está quente ao tocá-la e, ao mesmo tempo, perceber o aroma do café e o vapor subindo. As diferentes entradas sensoriais são combinadas em uma única experiência integrada.
Percepção visual
A percepção visual é a interpretação dos estímulos captados pelos olhos, incluindo cor, forma, contraste, movimento e distância. Ela vai muito além de simplesmente enxergar: o cérebro organiza linhas e cores em objetos reconhecíveis.
Um exemplo é reconhecer instantaneamente uma placa de trânsito pela cor e pelo formato, mesmo à distância. Muito do que sabemos sobre percepção visual vem dos estudos da Gestalt, que mostram como agrupamos elementos em conjuntos com significado.
Percepção espacial
A percepção espacial é a capacidade de perceber a posição, a distância e a orientação dos objetos em relação a nós e entre si, incluindo a percepção de profundidade. É o que nos permite estimar se conseguimos atravessar a rua a tempo, encaixar um carro em uma vaga ou pegar um objeto sem derrubá-lo. Ela depende de pistas como a diferença entre as imagens dos dois olhos e o tamanho relativo dos objetos.
Percepção seletiva
A percepção seletiva envolve prestar atenção a algumas partes do ambiente e ignorar outras. Como somos cercados por muito mais estímulos do que conseguimos processar, o cérebro filtra o que é relevante.
Um exemplo clássico é conseguir ouvir a voz de uma pessoa específica em uma festa barulhenta, ignorando as demais conversas. Esse filtro está diretamente ligado a como funciona a atenção seletiva e pode ser influenciado por expectativas e interesses, aproximando-se de fenômenos estudados pelo viés cognitivo.
Percepção de risco
A percepção de risco é a forma como avaliamos a probabilidade e a gravidade de um perigo. Ela nem sempre corresponde ao risco real, pois é moldada por emoções, experiências anteriores e pela familiaridade com a ameaça.
Um exemplo é sentir mais medo de voar de avião do que de andar de carro, mesmo sendo o carro estatisticamente mais perigoso. Compreender a percepção de risco ajuda a explicar por que pessoas diferentes tomam decisões distintas diante da mesma situação.
Percepção social e percepção da pessoa
A percepção social é como enxergamos e interpretamos grupos e situações sociais, um processo que pode ser afetado por estereótipos e generalizações. Já a percepção da pessoa refere-se à capacidade de ler dicas sociais sobre indivíduos e relacionamentos, como interpretar uma expressão facial ou o tom de voz.
Um exemplo é formar uma impressão sobre alguém nos primeiros segundos de conversa. Esse é um dos focos da cognição social na psicologia.
Os diferentes tipos de percepção nos permitem experimentar nosso ambiente e interagir com ele de maneiras apropriadas e significativas.
Como funciona a percepção
Por meio da percepção, nos tornamos mais conscientes de (e podemos responder a) nosso ambiente. Usamos a percepção na comunicação para identificar como nossos entes queridos podem se sentir.
Usamos a percepção no comportamento para decidir o que pensamos sobre indivíduos e grupos. Esse processo se conecta com outras funções cognitivas, como a atenção e a memória sensorial, que retém brevemente as informações captadas pelos sentidos.
Estamos percebendo as coisas continuamente, embora normalmente não gastemos muito tempo pensando nelas. Por exemplo, a luz que incide sobre a retina de nossos olhos se transforma em uma imagem visual inconsciente e automaticamente. Mudanças sutis na pressão contra nossa pele, permitindo-nos sentir os objetos, também ocorrem sem um único pensamento.
Processo de Percepção
Para entender melhor como nos tornamos conscientes e respondemos aos estímulos do mundo ao nosso redor, pode ser útil observar o processo de percepção. Isso varia um pouco para cada sentido.
No que diz respeito ao nosso sentido da visão, o processo de percepção é assim:
- Estímulo ambiental: O mundo está repleto de estímulos que podem atrair a atenção. Estímulo ambiental é tudo no ambiente que tem potencial para ser percebido;
- Estímulo assistido: O estímulo atendido é o objeto específico no ambiente no qual nossa atenção está focada;
- Imagem na retina: Esta parte do processo de percepção envolve a passagem da luz pela córnea e pupila até a lente do olho. A córnea ajuda a focar a luz à medida que ela entra e a íris controla o tamanho das pupilas para determinar quanta luz deve entrar. A córnea e a lente agem juntas para projetar uma imagem invertida na retina;
- Transdução: A imagem na retina é então transformada em sinais elétricos através de um processo conhecido como transdução. Isso permite que as mensagens visuais sejam transmitidas ao cérebro para serem interpretadas;
- Processamento neural: após a transdução, os sinais elétricos passam por processamento neural. O caminho seguido por um determinado sinal depende de que tipo de sinal é (isto é, um sinal auditivo ou um sinal visual);
- Percepção: Nesta etapa do processo de percepção, você percebe o objeto estímulo no ambiente. É neste ponto que você se torna consciente do estímulo;
- Reconhecimento: A percepção não envolve apenas tornar-se consciente dos estímulos. Também é necessário que o cérebro categorize e interprete o que você está sentindo. A capacidade de interpretar e dar sentido ao objeto é o próximo passo, conhecido como reconhecimento;
- Ação: A fase de ação do processo de percepção envolve algum tipo de atividade motora que ocorre em resposta ao estímulo percebido. Isso pode envolver uma ação importante, como correr em direção a uma pessoa em perigo. Também pode envolver fazer algo tão sutil quanto piscar os olhos em resposta a uma nuvem de poeira soprando no ar.
Pense em todas as coisas que você percebe diariamente. A qualquer momento, você pode ver objetos familiares, sentir o toque de uma pessoa em sua pele, sentir o aroma de uma refeição caseira ou ouvir o som de uma música tocando no apartamento do vizinho. Tudo isso ajuda a compor sua experiência consciente e permite que você interaja com as pessoas e objetos ao seu redor.
Recapitulação do Processo de Percepção
- Estímulo ambiental;
- Estímulo assistido;
- Imagem na retina;
- Transdução;
- Processamento neural;
- Percepção;
- Reconhecimento;
- Ação.
Fatores que influenciam a percepção
O que torna a percepção um tanto complexa é que nem todos percebemos as coisas da mesma maneira. Uma pessoa pode perceber um cachorro pulando sobre ela como uma ameaça, enquanto outra pessoa pode perceber essa ação como o filhote apenas ficando animado ao vê-la.
Nossas percepções de pessoas e coisas são moldadas por nossas experiências anteriores, nossos interesses e o cuidado com que processamos as informações. Isso pode fazer com que uma pessoa perceba exatamente a mesma pessoa ou situação de maneira diferente de outra pessoa.
A percepção também pode ser afetada por nossa personalidade. Por exemplo, a pesquisa descobriu que quatro dos 5 grandes traços de personalidade, abertura, conscienciosidade, extroversão e neuroticismo, podem afetar nossa percepção de justiça organizacional.
Por outro lado, nossas percepções também podem afetar nossa personalidade. Se você perceber que seu chefe o está tratando injustamente, por exemplo, você pode apresentar traços relacionados à raiva ou frustração. Se você percebe que seu cônjuge é amoroso e atencioso, você pode mostrar características semelhantes em troca.
Dicas para melhorar a percepção
Se você quiser melhorar suas habilidades de percepção, há algumas coisas que você pode fazer. As ações que você pode realizar que podem ajudá-lo a perceber mais no mundo ao seu redor - ou pelo menos focar nas coisas que são importantes - incluem:
- Prestar atenção. Observe ativamente o mundo ao seu redor, usando todos os seus sentidos. O que você vê, ouve, prova, cheira ou toca?Usando seu senso de propriocepção, observe os movimentos de seus braços e pernas ou suas mudanças na posição do corpo;
- Dê sentido ao que você percebe. O estágio de reconhecimento do processo de percepção é essencial, pois permite que você entenda o mundo ao seu redor. Coloque os objetos em categorias significativas, para que você possa entender e reagir adequadamente;
- Tome uma atitude. A etapa final do processo de percepção envolve a realização de algum tipo de ação em resposta ao estímulo ambiental. Isso pode envolver uma variedade de ações, como parar para cheirar a flor que você vê na beira da estrada, incorporando mais de seus sentidos.
Potenciais Armadilhas de Percepção
O processo de percepção nem sempre ocorre sem problemas e há uma série de coisas que podem interferir em nossa capacidade de interpretar e responder ao nosso ambiente. Um deles é ter um distúrbio que afeta a percepção.
Os distúrbios perceptivos são condições cognitivas marcadas por uma capacidade prejudicada de perceber objetos ou conceitos. Alguns distúrbios que podem afetar a percepção incluem:
- Síndromes de negligência espacial, que envolvem não atender a estímulos de um lado do corpo;
- A prosopagnosia, também chamada de cegueira facial, é um distúrbio que dificulta o reconhecimento de rostos;
- Afantasia, uma condição caracterizada pela incapacidade de visualizar as coisas em sua mente;
- Esquizofrenia, que é marcada por percepções anormais da realidade.
Algumas dessas condições podem ser influenciadas pela genética, enquanto outras resultam de acidente vascular cerebral ou lesão cerebral.
A percepção também pode ser afetada negativamente por certos fatores. Por exemplo, um estudo descobriu que quando as pessoas viam imagens de outras pessoas, percebiam indivíduos com deformidades nasais como tendo traços de personalidade menos satisfatórios. Portanto, fatores como esse podem potencialmente afetar a percepção da personalidade.
História da Percepção
O interesse pela percepção remonta à época dos antigos filósofos gregos que se interessavam em como as pessoas conheciam o mundo e adquiriam entendimento. Como a psicologia emergiu como uma ciência separada da filosofia, os pesquisadores se interessaram em entender como diferentes aspectos da percepção funcionavam, particularmente a percepção da cor.
Além de entender os processos fisiológicos básicos, os psicólogos também estavam interessados em entender como a mente interpreta e organiza essas percepções, um dos objetos de estudo da psicologia cognitiva.
Os psicólogos da Gestalt propuseram uma abordagem holística, sugerindo que a soma é maior do que a soma de suas partes. Os psicólogos cognitivos também trabalharam para entender como as motivações e expectativas podem desempenhar um papel no processo de percepção.
Com o passar do tempo, os pesquisadores continuam a investigar a percepção no nível neural. Eles também analisam como lesões, condições e substâncias podem afetar a percepção.